Quarta-feira, 20 de março de 2019

#ORGULHOCPRM Entrevista a geofísica Lúcia Maria da Costa e Silva

O Serviço Geológico do Brasil completa 50 anos de história e, entre seus valores, destacam-se as pessoas que contribuíram para que a empresa se tornasse referência em geociências no Brasil. São histórias que merecem ser compartilhadas como orgulho da nossa empresa.

Conversamos com a geofísica Lúcia Costa e Silva, pioneira nas geociências no Brasil. Ela conta a sua trajetória e fala sobre a importância da geofísica para a ciência e sobre o forte impacto social das pesquisas que conduz.


Lúcia, você formada em geologia pela UFRRJ, com especialização, mestrado e doutorado em geofísica pela UFPA, além de vários outros cursos e experiências no Brasil e no exterior, como foi escolher essa profissão em uma época em que as geociências eram pouco difundidas?

Desde os 5 anos eu tinha interesse em Arqueologia, porque ia com minha mãe ver filmes de múmia e tesouros do antigo Egito.

Foi terrível descobrir que a múmia que eu via nos filmes não existia no Brasil. Mais tarde, já no vestibular, descobri que não existia graduação em Arqueologia no Brasil.

Eu comecei a me interessar por engenharia civil, mas minha mãe me falou de Geologia, que ela também lidava com investigações, descobertas.

Na aula inicial de Geologia Geral, o prof. Sebastião de Oliveira Menezes comentou que a Terra tinha vários movimentos. Eu só conhecia rotação e translação. Continuei indo às aulas para conhecer os outros movimentos da Terra e fui descobrindo que a Terra guarda muitos outros mistérios e me apaixonando por Geociências.


Em algumas entrevistas você menciona os obstáculos que teve que enfrentar para realizar o seu trabalho. O que motivou você a não desistir?

Em nossa cultura as mulheres foram colocadas ao longo do tempo em uma posição que não as permitia assumir e fazer vários trabalhos. Eu queria ter o direito de fazer o meu trabalho sem deixar minha postura como mulher e fui impedida várias vezes. Fui impedida de estagiar na Mina de Ouro de Morro Velho. Nem mulher e nem padre podiam entrar. Se você usava saia daria azar dentro das minas, segundo os mineiros.

Não pude fazer prova para entrar na PETROBRAS e nem consegui ser entrevistada por várias outras empresas.

A CPRM, contudo, tinha pessoal que discordava dessa barreira imposta às mulheres. Consegui entrar na CPRM e tornei-me a primeira mulher a ir ao campo em empresa brasileira para fazer Geofísica. Mais tarde, também, fui a primeira mulher a trabalhar em Serra Pelada.

Eu fui uma das sementes para a implantação do trabalho da mulher no campo e isso me orgulha. Sempre fui motivada pela necessidade de nós, mulheres, mostrarmos que temos os mesmos direitos que os homens.


Você começou sua carreira na CPRM, mas saiu?

Sim, naquela época, ao contrário de agora, não nos era permitido fazer pós-graduação. Segui, então, pela vida acadêmica, tornando-me professora da UFPA.

No entanto, eu sempre quis muito voltar a trabalhar na CPRM. Por isso, participei do último concurso e voltei.


E quais são os projetos que a geofísica está inserida e que colaboram para o bem-estar da sociedade?

É impossível encontrar petróleo sem geofísica. E, na prospecção mineral, a Geofísica está presente pelo menos no mapeamento (aéreo).

No entanto, ela pode fazer muito mais.

Já trabalhei com prospecção de água e, especialmente, contaminação de aquíferos por meio de cemitério, posto de combustíveis, etc. Contaminação radioativa, também. Todos esses trabalhos têm forte impacto social. O trabalho com cemitérios, por exemplo, além de ter sido premiado, forneceu subsídios técnicos necessários para o fechamento de um cemitério bem como suscitou a necessidade de se escrever legislação referente à instalação dos mesmos; essa legislação prevê trabalhos geológicos e geofísicos.

Recentemente, eu e meus colegas geofísicos da SUREG- Belém oferecemos o curso "Investigação Radiométrica para as Áreas Ambiental, de Engenharia e Geologia de Minas, Forense-Criminal, Defesa Civil e Agronomia". Não é muito conhecido, por exemplo, mas vários rejeitos de minas são radioativos. Aqui no Pará, há mina que não foi colocada em funcionamento por conta da radioatividade dos rejeitos.


A CPRM desenvolve trabalhos pioneiros com geofísica forense?

Sim. Em 2011 o governo enfatizou que órgãos federais devem apoiar uns aos outros e uma das áreas mais necessárias era a de Segurança.

Foi assim que, com um ex-colega da CPRM Belém, fui rastrear túneis de fuga escavados em presídio. Também fomos responsáveis pela investigação sobre desaparecimento de restos mortais de um cemitério, solicitado por promotoria a CPRM.


E o radar de penetração no solo? Esse equipamento foi utilizado em Brumadinho, certo?

Sim. O radar utilizado pelos colegas da USP, a despeito da penetração difícil do sinal que emite na lama da barragem, teria conseguido separar zonas sem interesse de zonas que teriam possibilidade de ter pessoas e materiais a serem resgatados.

Há uma versão de radar, produzidos nos EUA, que permite encontrar pessoas respirando ou se movimentando debaixo de destroços, mas ela inexiste no Brasil.

Esse tipo de trabalho serve, portanto, para a área de Risco Geológico.

A Geofísica, no entanto, não é usada apenas dessa maneira em barragens. Há várias possibilidades. No momento, por exemplo, a CPRM, a pedido da ANM está também utilizando geofísica em barragem aqui no Pará, para estudar compactação e infiltrações.

Mas há muitas outras utilizações do GPR, da Geofísica. Inclusive existe Geofísica aplicada à Arqueologia. A Geofísica permitiu-me viver o sonho de trabalhar também com a investigação de urnas funerárias na Amazônia, com a Arqueologia que eu tanto desejei quando criança.


Você foi homenageada com o troféu de agradecimento do exército pela participação no Grupo de Trabalho Tocantins pelo resgate dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia usando o GPR. Conte mais sobre essa experiência.

Esse trabalho foi coordenado pela UNB e Exército e contou com o apoio de várias universidades para troca de experiências, mais o nosso caso, o levantamento de dados. Foi um dos mais extensos trabalhos realizados com GPR que se têm notícia. Muito pouco foi resgatado. O clima pode ter se incumbido da decomposição total dos guerrilheiros, mas, como descrito em um livro de autoria de militar que participou dos trabalhos na época, os restos podem ter sido recuperados pelo Exército próximo do final do governo militar e espalhados de helicóptero pela Serra das Andorinhas, para evitar sua recuperação.


A CPRM comemora 50 anos em agosto e você fez parte do corpo da empresa em seu início e agora de novo. O que você tem a dizer para os colegas, em especial os geofísicos que entraram recentemente na empresa?

A CPRM tem desenvolvido trabalhos de pesquisa voltados para a sua missão, de disseminar o conhecimento geocientífico. Tradicionalmente, a CPRM lida com a investigação mineral, mapeamento, prospecção e monitoramento de aquíferos. No entanto, ela lida com muito mais, por exemplo, com ocupação territorial e proteção ambiental, que garantem a segurança de toda a comunidade. Em todas essas áreas, o papel da Geofísica precisa ser repensado e dinamizado.

Eu gostaria, contudo, de frisar algo que aprendi quando fiz MBA em marketing. É preciso, todos nós, nos esforçarmos em conscientizar as comunidades, as autoridades sobre a importância de realizar estudos do solo antes de começar alguma edificação, antes de começar a ocupação territorial. Quando uma cidade é mal planejada, danos no futuro são certos. Naquelas regiões em que a prefeitura ainda não tem condições de ter um geólogo, um geofísico, outras entidades precisam prestar esse tipo de serviço. O Serviço Geológico do Brasil e as universidades podem ser engajados.

Precisamos divulgar e muito nossa empresa. A obra espetacular que ela faz, para que esta seja conhecida pela população.


O que você tem a dizer para as mulheres geofísicas da empresa?

Eu diria que nós, mulheres, precisamos ocupar outros espaços que ainda nos são vedados, notoriamente na área de Geociências, como é o caso dos cargos de chefia. As mulheres estão estudando mais, são consideradas muito comprometidas com o trabalho, mas ocupam apenas 15% dos cargos de chefia no mundo.

Lúcia manuseia o equipamento GPR no campo em Maceió. Letícia Peixoto
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