Peter Wilhelm Lund

Estabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde realizou um exaustivo levantamento de toda a vegetação da Baixada Fluminense. Realizou também estudos sobre o comportamento das formigas e procedeu à montagem de várias coleções zoológicas. Em 1829, volta à Europa, estabelecendo contato com as mais importantes autoridades em história natural, como Humbold e Cuvier.

Em 1833 retorna, em caráter definitivo, ao Brasil. Ainda nesse ano, iniciou uma viagem para estudar a flora brasileira em companhia do botânico L. Riedel. No decorrer dessa viagem, ao passar pela região de Curvelo, em Minas Gerais, encontrou um contemporâneo seu, o dinamarquês Peter Claussen, que explorava salitre nas cavernas calcáreas. Visitando as cavernas da região, Lund reconhece, pela primeira vez, as ossadas que se encontravam misturadas ao salitre.

Diante dessas descobertas, ele não hesitou e decidiu optar por uma nova área de pesquisa. Assim, após concluir os estudos "A Respeito da Vegetação dos Campos do Brasil", Lund fixou residência em Lagoa Santa, encontrando ali o lugar ideal para viver. As primeiras grutas visitadas por ele na região foram a Lapa Vermelha e a Lapa Nova de Maquiné, tendo escrito com minúcias os espeleotemas encontrados.

"Todos estes deslumbrantes primores da natureza são realçados pelos mais delicados ornatos, tanto de formas fantásticas quanto de bom gosto, franjas, grinaldas e uma infinidade de outros enfeites, cuja enumeração seria fastidiosa e incapaz de dar ideia da beleza do conjunto àqueles que não o viram com os próprios olhos." (Lund)

Nessas grutas foram encontradas, pela primeira vez, ossadas fósseis, destacando-se: o smilodon populator (tigre-dente-de-sabre), o tatu gigante e o nortrotherium maguinense (preguiça gigante). Eram fósseis notáveis pelo tamanho e de marcantes diferenças em relação aos seus similares mais recentes.

Lund pesquisou mais de uma centena de grutas, onde encontrou em torno de 120 espécies fósseis e 94 espécies pertencentes à fauna atual. A coleção de Lund é composta de espécies das seguintes ordens de mamíferos: marsupiália, chiroptera, rodentia, carnívora, notungulata, liptoterna, artiodáctyla, perissodactyla, prosbocídea, edentada e primatas.

Suas pesquisas duraram 10 anos e a coleção, possuindo 14 mil peças ósseas, foi enviada para a Dinamarca, sendo posteriormente estudada por Herluf Winge e Reinhard. Em 1844, Lund perde todo o seu vigor físico, abandonando as pesquisas de campo e passando a viver em completo isolamento, interrompendo, assim, todo o seu trabalho científico.


As várias facetas do cientista
Além de botânico, zoólogo e paleontólogo, Lund dá também grande contribuição à arqueologia de seu tempo. Foi o primeiro a assinalar a existência dos sambaquis (montes de restos marinhos) no litoral brasileiro. Dava como certa a construção dos mesmos pelo homem e, assim sendo, se constituíam em valiosos sítios arqueológicos.

Fez menção às inscrições rupestres encontradas em algumas grutas por ele visitadas e descreveu instrumentos líticos encontrados próximos às margens do Rio Tietê (SP) e em grutas mineiras. Publicou diversos trabalhos junto à Real Sociedade Científica Dinamarquesa, obtendo o reconhecimento dos grandes cientistas da época.

Foi ele também quem deu o primeiro passo para o estudo da ecologia brasileira, ao convidar o jovem botânico Eugene Warming para ir a Lagoa Santa fazer um levantamento dos cerrados na região. Um exaustivo estudo da vegetação foi então realizado, dando origem a um magnífico trabalho publicado em 1840: o primeiro estudo mundial de fitoecologia.


O homem
Além de grande cientista, Lund foi também homem amigo e prestimoso para os habitantes da pequena Vila de Lagoa Santa, onde viveu os últimos anos de sua vida. De hábitos bastante excêntricos e temperamento arredio, preferindo o isolamento, ele tinha, no entanto, o filho adotivo, Nereu Cecílio, constantemente a seu lado, auxiliando-o em tudo o que fazia.

Prestou inestimável contribuição à vida cultural do Arraial, ensinando música e criando a primeira banda de música de Lagoa Santa: a Corporação Musical Santa Cecília. Ele distribuiu todos os seus bens entre seu filho e entre algumas pessoas que o serviram, comprovando, mais uma vez, seu caráter humanitário.

Ao pressentir a aproximação de sua morte, ocorrida em 25 de maio de 1880, Lund determinou o lugar onde desejava ser sepultado: à sombra de um pequizeiro, num local aprazível onde costumava ir estudar. Lund era protestante e por isso seu desejo de ter um jazigo particular. No mesmo local foram sepultados seus colaboradores Bherens e Müller. Em 1935 foi erguido nesse mesmo local um monumento a Eugene Warning e a Lund por iniciativa da Academia Mineira de Letras.

Há quase dois séculos, Lund já se preocupava e alertava todos acerca da importância da preservação do meio ambiente, especialmente das grutas e da vegetação, que àquele tempo já eram destruídas e depredadas para exploração econômica. Em carta ao rei Cristiano, da Dinamarca, ele externou seu desejo e preocupação, concluindo com muita sabedoria que "tudo seria muito diferente se a luz benéfica da ciência guiasse os trabalhos da indústria".

O dinamarquês Peter Wilhelm Lund, nascido em Copenhagen, capital da Dinamarca, em 14 de junho de 1801, era filho de ricos comerciantes. Diplomado pela Universidade de Copenhagen, guiado por seu ardente interesse pelas ciências naturais, veio ao Brasil pela primeira vez em 1825. Buscava não só dar continuidade a seus estudos botânicos e zoológicos, mas também um clima mais benéfico para sua saúde debilitada por doença pulmonar.

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