Quarta-feira, 04 de agosto de 2021

Crise hídrica: seca pode afetar abastecimento de água em MT

Em alguns pontos, o rio Paraguai está no nível mais baixo de toda a série histórica. De acordo com o governo federal, a intensidade da vazante aumentou a partir do mês de julho no MT e MS, e deve seguir severa em agosto e setembro.
Rio Paraguai vem registrando níveis entre os mínimos históricos. Registro em Corumbá (MS) Foto: Josiney Severino dos Santos/Defesa Civil MS
O nível do rio Paraguai, que drena o bioma Pantanal, baixou quase 20 centímetros na última semana, diminuindo cerca de dois centímetros por dia, em Ladário (MS). A estação, considerada um termômetro da situação de seca na região, registra 84 centímetros nesta quarta-feira (4), enquanto o nível normal esperado para esta época do ano é de 4,15 metros. O ritmo de descida dos níveis deve se intensificar no mês de agosto e piorar a crise hídrica na região, de acordo com o Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM). O ano de 2021 já é o terceiro consecutivo em que o Pantanal não apresentou a habitual cheia. O prognóstico foi apresentado na Sala de Crise do Pantanal a convite da Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA).

De acordo com o órgão do governo federal, a seca do rio Paraguai já é a pior de toda série histórica em Cáceres (MT), que data de 1967, e está entre as 10% piores da série histórica em Porto Murtinho (MS), que data de 1937. Em Ladário já é a quinta pior vazante desde 1901. Este é o segundo ano consecutivo que a bacia está nesta situação. O pesquisador do SGB-CPRM Marcus Suassuna afirma que os meses de julho e agosto apresentam um avanço mais rápido do processo de vazante, principalmente na calha principal do rio Paraguai.

Mapa indica situação das estações de monitoramento do rio Paraguai / Imagem: SGB-CPRM O norte da bacia, região estratégica para o monitoramento porque as chuvas costumam ser mais abundantes no início do ano, também preocupa. As estações em Cáceres (MT) e na capital Cuiabá (MT) registram níveis abaixo da mínima histórica que já havia sido atingida em 2020. A estação de Cáceres registra hoje 54cm, enquanto o esperado seria 1,73 metros. Ano passado, nesta mesma data, o rio marcava 85 cm. Preocupação para o abastecimento de água. Na capital do estado, a cota atual é 20 cm, quando o valor normal seria 81cm.

Nos municípios de Ladário e Porto Murtinho (MS), o nível do rio subiu consideravelmente em janeiro de 2021, mês em que as chuvas ficaram mais próximas do normal. Mas foi o único mês em que isso aconteceu: o rio voltou a receber chuvas abaixo da média e a recuperação foi lenta. A situação foi agravada pelo fim precoce da estação chuvosa, no início de abril.

Impacto nos recursos hídricos- Segundo o SGB-CPRM, o rio só esteve mais baixo do que agora em 4 ou 5 episódios durante a seca prolongada dos anos 1960 e 1970. Mas poucas estações de monitoramento existiam na região do Pantanal na época. “Estamos caminhando para o terceiro ano consecutivo com déficit significativo de chuvas", afirma Marcus Suassuna.

O reservatório da usina de Manso, que atende a região de Cuiabá (MT), opera com vazão mínima há mais de um ano. Segundo a Furnas, empresa que opera a hidrelétrica, o reservatório conta atualmente com 20,6% de seu armazenamento e, caso seja mantido o nível de utilização atual, é possível projetar um colapso hidráulico a partir da primeira quinzena de outubro.

Prognóstico- A estação de Ladário deve atingir a mínima de -44 centímetros por volta de 20 de outubro, sendo que atingiu -32 centímetros no ano passado. O pesquisador Marcus Suassuna afirma que as previsões para o comportamento futuro do rio são feitas em comparação com a série histórica. Normalmente, quanto mais baixo o nível do rio em junho, mais cedo deve começar a estação chuvosa. “Com qualquer chuva que caia sobre a bacia, o rio terá uma resposta mais rápida”, explica. No entanto, em 2020 a combinação foi a pior possível: uma seca severa com fim tardio.

Prognóstico para os níveis do rio Paraguai nas principais estações monitoradas pelo SGB-CPRM Chuvas- De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), existe a possibilidade da estação chuvosa no centro-oeste do Brasil não atrasar muito neste ano. As chuvas devem aumentar em setembro, mas com volumes baixos. Nos dois últimos meses do ano, as precipitações devem atingir valores próximos à climatologia. A estimativa é de retorno das chuvas na segunda quinzena de outubro. A meteorologista do INPE Caroline Vidal ressalta que 2021 vem se comportando como um ano bem mais seco, com menor volume de chuva registrado desde 2010.

De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a região do Pantanal vive uma seca pluviométrica que já dura dois anos. Em certas regiões do estado do Mato Grosso, não chove há mais de 60 dias. O órgão informa que chuvas de até 30% acima ou abaixo da média não devem fazer uma diferença significativa na seca durante o próximo mês, já que as chuvas nesta época são escassas. “Independentemente do cenário de chuvas, vamos continuar com o problema de seca”, afirma o meteorologista Marcelo Seluchi. É provável que o Brasil passe pelo fenômeno La Niña, de resfriamento dos oceanos, durante a primavera. Isso deve prejudicar as chuvas no centro-sul do país.

Queimadas- Os focos de queimadas atingiram um pico no ano passado. Neste ano, o número de focos registrados é pequeno, mas o período em que eles costumam aumentar ainda não chegou. Na média de 2003 a 2019, o auge das queimadas é no trimestre de agosto, setembro e outubro. Espera-se que a temperatura do ar fique acima da média no próximo trimestre, principalmente sobre o Mato Grosso do Sul e o extremo-sul de Mato Grosso.

Rede Hidrometeorológica Nacional- Os dados hidrológicos utilizados são provenientes da Rede Hidrometeorológica Nacional de responsabilidade da Agência Nacional de Águas (ANA), operada pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e demais parceiros. As previsões realizadas pelos engenheiros da CPRM são baseadas em modelos hidrológicos e estão sujeitas às incertezas inerentes aos mesmos.

Saiba mais sobre o SAH Paraguai- Tanto no período de estiagem quanto na época de cheia, o Sistema de Alerta da Bacia do Rio Paraguai (Pantanal) realiza o monitoramento dos rios Paraguai, Cuiabá, Aquidauana, Miranda e Coxim, nos municípios de Corumbá, Ladário, Porto Murtinho, Anastácio, Aquidauana, Bonito, Coxim e Miranda (MS) e Cáceres, Cuiabá e Santo Antônio do Leverger (MT), com previsão hidrológica para os municípios: Porto Murtinho, Ladário e Corumbá (MS) e Cáceres (MT). O sistema abrange os Estados do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, atendendo uma população de 1.024.281 habitantes. A Bacia do Rio Paraguai tem uma área 1.095.000 km² (33,8% no Brasil, 32,4% no Paraguai, 18,7% na Bolívia e 15,1% na Argentina).
Saiba mais: https://bit.ly/37AcBDv

Janis Morais
Bettina Gehm
Assessoria de Comunicação
Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM)
imprensa@cprm.gov.br
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