Terça-feira, 23 de novembro de 2021

Estudo indica atenção com a qualidade da água em Fernando de Noronha

Trilha percorrida a pé entre os pontos de amostragem
O Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM) divulgou dados geoquímicos de toda a superfície do Arquipélago de Fernando de Noronha. O estudo possibilitou o estabelecimento de níveis de referência ou background dos teores elementares em solos e sedimentos de drenagem, além da identificação de possíveis fontes de contaminação nas escassas fontes de águas superficiais. O Atlas Geoquímico do Arquipélago de Fernando de Noronha está disponível no Rigeo.

O recobrimento geoquímico superficial contemplou a determinação dos teores de 53 elementos químicos em 71 amostras de solos, 16 de sedimentos ativos de drenagem, seis de águas superficiais e duas de águas de abastecimento. De acordo com a geóloga do SGB-CPRM Melissa Franzen, a dispersão dos elementos químicos no ambiente é controlada inicialmente pelos processos naturais, porém, a atividade humana contribuiu em áreas específicas para a alteração do ambiente geoquímico a partir dos núcleos habitacionais e das atividades instaladas. O autor principal do estudo é o geólogo Enjôlras Medeiros Lima.

A partir das análises, a pesquisadora Melissa Franzen alerta sobre o fósforo, nutriente desejável em solos e prejudicial em águas superficiais devido ao risco de eutrofização, situação em que determinadas espécies como as cianobactérias desenvolvem estratégias de adaptação, tais como a liberação de toxinas, que não são eliminadas no tratamento de água convencional. Os resultados apontam excesso na forma de fosfato em todas as drenagens - riachos e açudes. Nos açudes, a baixa velocidade da água, aliada ao excesso de nutrientes, insolação e temperaturas elevadas, propiciam as condições ideais para a ocorrência da eutrofização.

Foram identificados níveis de background naturalmente elevados de alguns metais (cromo, cobre, manganês, níquel, zinco e ferro), devido à composição do substrato vulcânico básico-ultrabásico predominante na ilha, onde sobressaem especialmente os teores de cromo e níquel, que se encontram uma ordem de grandeza acima dos limites de segurança ambiental.

Níveis muito altos de fósforo em solos e sedimentos, e teores pouco acima da referência ambiental de cádmio, amplamente distribuídos na ilha principal, cuja origem está associada à deposição de guano (dejetos de aves) também foram identificados. Já os teores pouco acima da referência ambiental de arsênio, em pontos isolados, devem ser creditados a uma possível influência antrópica. Vale destacar que estes dados não representam risco à saúde humana, desde que os solos não sejam utilizados para a produção de alimentos.

Com uma extensão territorial de 26 Km², dos quais 17 km2 são da ilha principal e 9 km2 são distribuídos entre as ilhas menores, ilhotas e rochedos, e uma densidade demográfica que ultrapassa os 154,55 hab/km2 [Censo de 2010], a população (nativa e residente) foi estimada em 2019 em 3.061 habitantes. Com o fluxo de turistas, entretanto, estima-se em cerca de 5.000 os usuários de água potável nos períodos normais, chegando a 8.000 na alta estação.

A disponibilidade de água é muito restrita e o abastecimento público faz uso do açude Xaréu, de maior volume e responsável por cerca de 60% do atendimento, complementados com água do mar dessalinizada na Estação de Tratamento da Água (ETA). Das fontes de abastecimento, foram amostrados o açude Xaréu e a água bruta da ETA, que corresponde a uma mistura de água doce e dessalinizada. No açude Xaréu, apesar de melhor qualidade, também havia excesso de fosfato e baixos níveis de oxigênio dissolvido, que expressam a dificuldade de depuração da matéria orgânica frente ao excesso de produtividade e a baixa taxa de renovação da água.

A escassez de água potável se deve em parte ao clima tropical, com temperaturas elevadas e acentuada estiagem, magnificada pela reduzida capacidade de retenção, resultando que praticamente inexistem cursos de água perenes - aqueles cujas águas correm durante todo o ano. Na ilha principal foram localizadas apenas 16 drenagens, a maioria delas intermitentes ou temporárias, pois a água só escorre na estação chuvosa. No período coincidente com o início da estação seca, apenas seis delas estavam com alguma água corrente. Nos riachos, foram encontrados indícios de contaminação por resíduos domésticos no Boldró (cloretos e nitratos) e de dejetos recentes de animais no Atalaia (nitritos), este último, sem ocupação urbana.

Dentre as ações do Levantamento Geoquímico de Baixa Densidade no Estado de Pernambuco, o Atlas Geoquímico do Arquipélago de Fernando de Noronha objetivou o conhecimento da paisagem geoquímica deste delicado e isolado ecossistema insular, visando prover subsídios à sustentabilidade do meio ambiente. “O reconhecimento de forma integrada das suas peculiaridades geoquímicas naturais, com a convivência do ser humano e da população animal, associada à atividade de turismo, possibilita o direcionamento da aplicação futura de recursos públicos e privados, com a indicação de alvos para investigações mais detalhadas de prevenção de sanidade ambiental”, finalizou Franzen.

Janis Morais
Assessoria de Comunicação
Serviço Geológico do Brasil (SGB- CPRM)
Ministério de Minas e Energia
imprensa@cprm.gov.br

Pesquisador à procura de solo adequado para coleta na Ilha Rata

Acesso por escada à Ilha Rata

Procedimento de amostragem de solo

Trecho da trilha do Capim-Açú
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