Projeto Amajari

Início: 08/2003; Término: 09/2006; Duração: 37 meses

 


Objetivo e Justificativas

 

Levantamento geológico básico na escala 1:100.000 de uma área com aproximadamente 3.136 km² referente à Folha Vila de Tepequém. São objetivos principais do projeto:

Cartografia geológica compatível com a escala 1:100.000;

 

Caracterização petrológica, geocronológica e estrutural das unidades litológicas ígneas e metamórficas expostas na região, dentre as quais destacam-se: as rochas da Suíte Máfica – Ultramáfica Uraricaá; os granitoides tipo-A relacionados ao Granito Aricamã; os granitoides tipo-I, calcialcalinos da Suíte Intrusiva Pedra Pintada; os vulcanitos do Grupo Surumu; os granitos tipo-S relacionados à unidade Granito Amajari; a sequência metavulcanossedimentar do Grupo Cauarane; e as rochas ígneas e metamórficas indiferenciadas do Complexo Urariquera; 

Caracterização da litoestratigrafia da Serra Tepequém com enfoque na descrição dos sistemas e ambientes deposicionais da formação Tepequém;

 

Caracterização dos eventos tectono-termais do ponto de vista geométrico, cinemático, geocronológico e de evolução metamórfica;

 

Avaliação do quadro estrutural regional e seu significado no arcabouço geotectônico desta porção do Escudo das Guianas, tendo em vista os limites estabelecidos para os domínios Parima e Surumu (Reis et al. 2003 e Reis et al. 2004) no interior das províncias Tapajós-Parima e Amazônia Central (Tassinari & Macambira et al. 1999 e Santos et al. 2002);

 

Caracterização da potencialidade metalogenética das diversas unidades rochosas cartografadas com referência a: 1-) platinoides, Cr, Ni, Cu, Co, V e Ti em rochas da Suíte Máfica-Ultramáfica Uraricaá; 2-) Sn, W, Nb, Ta, Cu, Au e Mo em granitoides do tipo-A (granito Aricamã) e tipo-I (Suíte Intrusiva Pedra Pintada); 3-) Au, Ag, Cu e ametista em vulcanitos do Grupo Surumu; 4-) Pb, Zn, Cu, Au, Fe no Grupo Cauarane; 5-) Au e diamante na Formação Tepequém;

 

A elaboração de um modelo geológico/metalogenético evolutivo para a região.

 

A Folha Vila de Tepequém, situada na porção central do Escudo das Guianas, representa uma oportunidade única de enfocar na escala 1:100.000 grandes e importantes problemas geológicos regionais delineados previamente pelo Projeto Roraima Central (CPRM, 1999) realizado na escala 1:500.000. O Projeto Amajari volta-se para uma área com limitado reconhecimento geológico de campo (apenas na escala de reconhecimento), que apresenta uma notável diversidade litológica (sedimentar, ígnea e metamórfica), além de constituir alvo metalogenético à investigação de platinoides, sulfetos, ouro e diamante. Como importante apoio à cartografia geológica, a área conta com recente levantamento aerogeofísico com espaçamento de linhas voo em 500 metros (Projeto Aerogeofísico Distrito Mineral Parima-Urariquera).

 


Localização e Acesso

 

A área proposta situa-se na porção nor-nordeste de Roraima, correspondendo à Folha NA.20-X-A-III, Vila de Tepequém. Trata-se de uma região transicional de vegetação do tipo savana, restrita ao extremo leste da folha, para aquela de floresta tropical, que caracteriza a maior parte da área. Zonas de desmatamento estão limitadas às áreas de assentamentos do INCRA. O relevo é constituído por serras e rios encachoeirados. A área conta com estradas que permitem um acesso a aproximadamente 45% da folha. As principais drenagens correspondem ao Rio Urariquera, representado pelo Furo de Santa Rosa, na porção sul da área; ao Rio Amajari, ao norte; e ao Rio Trairão, na parte sudoeste da folha.

 


Geologia Regional

 

A área do projeto insere-se na porção central do Escudo das Guianas, norte do Cráton Amazonas. De acordo com os modelos de províncias geocronológicas, ocupa a Província Amazônia Central de Tassinari & Macambira (1999) e situa-se na Província Tapajós-Parima (de Santos et al 2000, ver também Santos et al 2002 e 2003). Em relação às principais compartimentações litoestruturais referidas por Reis & Fraga (1998), Reis & Fraga (2000) e Reis (et al 2003), a área situa-se a sul do Bloco Sedimentar Pacaraima (Reis & Yánez 1999; 2001), no Domínio Urariquera (este último renomeado Surumu, apud Reis et al. 2004) e nas proximidades do limite com o Domínio Parima.

 

Borda norte da Serra do Tepequém (PR). Camadas suborizontais de arenitos e conglomerados de Formação Tepequém, notabilizadas por seu potencial diamantífero.

Considerando-se as compartimentações litoestruturais propostas por Reis et al. (2003) e Reis et al. (2004), o Domínio Surumu é caracterizado em grande parte por granitoides das suítes intrusivas Pedra Pintada e Saracura, além da extensa área de rochas vulcânicas do Grupo Surumu, cuja distribuição espacial dos corpos configura faixas rochosas com direção E-W a WNW-ESE. Em direção a oeste a estruturação WNW-ESE passa a ser mais importante e grada a NW-SE (Fraga et al. 1994) nas proximidades com o Domínio Parima. Os granitoides da Suíte Intrusiva Pedra Pintada (SIPP - Fraga et al. 1996; Fraga et al. 1997a) e vulcanitos Surumu (Melo et al. 1978, Reis & Fraga 1996; Reis & Haddad 1999; Reis et al. 2000a) representam um importante magmatismo cálcio-alcalino (vulcano-plutonismo Orocaima – Reis et al. 2000a; Fraga & Reis 2002), cujas idades situam-se no intervalo 1,96 - 1,98 Ga (In: Reis et al. 2003), tendo sido relacionados ao ambiente pós-colisional por Fraga et al. (1996) e interpretados como representantes de arcos magmáticos por Santos et al. (2003). Fraga et al. (1999) relacionaram à Suíte Intrusiva Saracura (SIS) inúmeros corpos de granitos tipo-A com idade ainda incerta, identificados na porção norte de Roraima. Estudos recentes revelaram, no entanto, que os granitoides identificados na área tipo da unidade, a Serra Saracura, diferem sobremaneira daqueles granitoides incluídos por Fraga et al. (1999) na SIS, indicando a necessidade de revisão dessa terminologia. Para o granito aflorante na Serra Saracura, uma idade em torno de 1,30Ga (Santos J.O.S., com. verbal) foi recentemente obtida, enquanto Costa (1999) cita idades Pb-Pb em zircão no intervalo de 1,89 - 1,74 Ga para granitoides relacionados a SIS no norte de Roraima. Os granitoides da SIPP e SIS e vulcanitos Surumu revelam, em geral, texturas ígneas perfeitamente preservadas. Ao longo de estreitas zonas de cisalhamento essas texturas são obliteradas por uma petrotrama deformacional desenvolvida em ambiente dúctil-rúptil, com uma temperatura em torno de 350 ºC (Fraga & Reis 1995).

Nos vulcanitos registra-se uma foliação muito bem desenvolvida, por vezes de plano-axial de dobras fechadas. As vulcânicas Surumu formam o substrato da bacia sedimentar do Supergrupo Roraima e Formação Tepequém (Reis 1999, na área do projeto), dentre outros outliers sedimentares. A idade mínima de formação da cobertura corresponde a 1,78 Ga (Santos et al. 1999) referente às Básicas Cipó (Reis et al. 1990), Diabásio Avanavero. Uma população constituída por três zircões detríticos provenientes de pacotes conglomeráticos da base do supergrupo forneceu valor em torno de 1,95 Ga, idade que tem sido verificada para o plutonismo Pedra Pintada e que fornece indicação de que a sedimentação Roraima processou-se após o encerramento do magmatismo calci-alcalino nessa porção do escudo, denominado Episódio Orocaima (Reis et al. 2003). Fraga (1999) relata que o importante avervo deformacional, com foliações muito bem desenvolvidas ao longo de várias faixas, observado no substrato vulcânico Surumu, está aparentemente ausente nas rochas sedimentares do Supergrupo Roraima e propõe o Episódio Macuxi para agrupar tal acervo. As rochas sedimentares, embora não exibam quadro deformacional similar ao verificado no sustrato vulcânico, registram fraca inversão positiva de seus estratos (Costa et al. 1991a).

Na Serra Tepequém, Fraga et al. (1994) e Fraga (1999) descrevem dobras suaves e uma foliação definida como clivagem ardosiana nos pelitos e espaçada nos psefitos, sendo essa foliação restrita à borda da serra. O registro deformacional na cobertura sedimentar tem sido atribuído pela autora ao Episódio K’Mudku. Enxames de diques máficos secionam todas as unidades precedentes, encontrando-se relacionados ao magmatismo Avanavero e cuja principal feição ocorre sob forma de soleiras no interior do Bloco Sedimentar Pacaraima. Corpos máficos e ultramáficos foram relacionados à Suíte Máfica-Ultramáfica Uraricaá (Riker et al. 1999a), cuja idade permanece incerta. Enxames de diques NE-SW com idades mesozoicas aparecem no Domínio Surumu e são reunidos na unidade Diabásio Taiano, conquanto os derrames basálticos do Gráben Tacutu, no Domínio Guiana Central, agrupam-se na Formação Apoteri (Reis, N.J. com. verbal). Mais para sul, no Domínio Surumu, as vulcânicas Surumu e granitos intrusivos da SIPP e SIS dão lugar a uma sequência paraderivada, composta por paragnaisses, xistos máficos, calcissilicáticas e metacherts, intensamente deformada, polidobrada e metamorfisada na fácies xisto verde a anfibolito, pertencente ao Grupo Cauarane (Riker et al. 1999b). Pequenos corpos de granitos do tipo S relacionam-se espacialmente às paraderivadas (Granito Amajari, Reis & Almeida 1999). Rochas paraderivadas da fácies granulito, previamente incluídas no Grupo Cauarane, foram recentemente reunidas na Suíte Metamórfica Murupu (Luzardo &, Reis 2001). O valor U-Pb em 2,04 Ga (CPRM 2002) registra a idade máxima de sedimentação para a Bacia Cauarane. Um mobilizado granítico com idade U-Pb em 1,97 Ga (Santos et al. 2003) sugere o auge do metamorfismo superimposto ao grupo na geração dos fundidos graníticos.

 

A oeste do Domínio Surumu dispõe-se o Domínio Parima, uma das mais importantes províncias auríferas do escudo. Com importantes faixas deformacionais na direção NW-SE, o Domínio Parima inclui extensos terrenos granito-gnáissicos, ainda pobremente estudados, relacionados ao Complexo Urariquera (Pinheiro et al 1984, Reis et al. 1994, Reis & Araújo 1999, Reis et al. 2004), uma sucessão metavulcanossedimentar representada pelo Grupo Parima e várias suites de granitoides (Almeida et al. 2001) e corpos máficos. Dados Sm-Nd recentemente publicados (Santos et al. 2003) sugerem uma crosta dominantemente paleoproterozoica sem importantes contribuições arqueanas para o domínio, sendo que idades U-Pb pós-transamazônicas em torno de 1,97 Ga e 1,94 Ga foram obtidas respectivamente para um metassiltito e um metandesito do Grupo Parima (Santos et al. 2003). Coberturas sedimentares proterozoicas ocorrem nas serras Urutanin, Uafaranda e Surucucus (Reis et al. 1991, Reis & Carvalho 1996, Reis et al. 2000b). Diques de diabásio correspondem à unidade Diabásio Avanavero.

 

O Domínio Guiana Central (DGC) corresponde a uma megafeição do Escudo das Guianas, de significado geotectônico ainda incerto, caracterizado por feições estruturais na direção NE-SW que truncam as feições NEW-SE do Domínio Parima. O cinturão, inicialmente reconhecido por Kroonenberg (1976) como Cinturão Granulítico, foi posteriormente estudado por Costa et al. (1991b), Fraga (1999) e Fraga et al. (1998), dentre outros autores. Ao longo do DGC em Roraima predominam ortognaisses e metagranitos calcialcalinos da Suíte Rio Urubu (Fraga et al. 1999), com idades entre 1,95 e 1,96 Ga (Fraga et al. 1999 e Fraga et al. 1997b), com subordinada presença de granulitos ortoderivados (Faria et al. 2000) com idade de 1,94 Ga (Santos inf. Verb apud Reis et al. 2003) e metassedimentos da fácies granulito (Suíte Murupu, Luzardo & Reis 2001). Ocorrem ainda corpos charnockíticos da Suite Intrusiva Serra da Prata e gnaisses e granitoides foliados com características químicas de granitos tipo A incluídos nas unidades Igarapé Miracelha e Igarapé Branco, com idades estabelecidas em torno de 1,94 Ga e tentativamente relacionados a um ambiente pós-colisional (Fraga et al. 2003a e b). Na porção central do estado dispõe-se a associação AMG da Serra Mucajaí (Fraga 2002), onde corpos de anortosito (1,52 Ga, U-Pb em baddeleyita, Santos et al. 1999) ocorrem em íntima relação temporal e espacial com granitos rapakivi e mangeritos com (1,54 Ga, U-Pb Gaudette et al. 1966; e 1,53 Ga, Pb-Pb, Fraga 2002). A Bacia Tacutu corresponde a uma reativação extensional do Mesozoico no interior do domínio.

 

A porção sudeste de Roraima, representada pelo Domínio Anauá-Jatapu (Reis et al. 2003), exibe idades em rocha que variam de 2,03 Ga a 1,81 Ga. Dois principais terrenos têm sido investigados: a) Martins Pereira-Anauá (Almeida et al. 2002) e b) Igarapé Azul-Água Branca (Almeida et al. 2002). O Terreno Martins Pereira-Anauá compreende idades que variam de 2,03 Ga (Complexo Anauá) a 1,96 Ga (Grupo Uai-Uai, Granito Serra Dourada e Suíte Martins Pereira). O Complexo Anauá foi interpretado como representante de um ambiente de arco magmático com derivação mantélica (Faria et al. 2002), cuja bacia back-arc seria representada pelo Grupo Uai-Uai (metavulcanossedimentar). Um magmatismo do tipo S tem sido atribuído ao Granito Serra Dourada, encontrando-se em associação às paraderivadas Uai-Uai. A Suíte Martins Pereira reúne biotita granodioritos e monzogranitos com idades U-Pb em 1,97 Ga (Faria et al. 2002). O Terreno Igarapé Azul-Água Branca (Almeida et al. 2002) compreende idades que se situam no intervalo 1,90-1,81 Ga. As suítes Água Branca e Igarapé Azul englobam granitoides cálcioalcalinos cujas idades situam-se no intervalo 1,90-1,88 Ga. Os vulcanitos Iricoumé, com idade Pb-Pb de 1,89 Ga (Macambira et al. 2002), associam-se ao plutonismo Água Branca, ambos relacionados ao Vulcano-Plutonismo Jatapu (Dall’Agnol et al. 1994; Haddad et al. 2000; Reis et al. 1999, 2000a e 2003). Duas gerações de granitos tipo A ocorrem no domínio Evento Alalaú-Mapuera, com cerca de 1,87 Ga (Suíte Mapuera e Granito Abonari), interpretado como pós-orogênico; e Evento Madeira-Moderna, com idades estabelecidas em 1,81 Ga (Suíte Madeira e Granito Moderna), interpretado como anorogênico. Gnaisses, migmatitos, metagranitos e charnockitos na fácies xisto verde a anfibolito superior reúnem-se na Suíte Jauaperi. As idades U-Pb de gnaisses e metagranitos oscilam entre 1,86-1,88 Ga; e um valor intermediário em 1,87 Ga foi encontrado para o charnockito Jaburu, revelando correspondência temporal com a Suíte Mapuera (Santos et al 2001).

 


Metodologia

 

A metodologia utilizada durante o mapeamento geológico segue as técnicas usuais descritas por Hobbs et al. (1976), Barnes (1981), MacClay (1987), Thorpe & Brown (1996), estando de acordo com as recomendações do Guia de Procedimentos Técnicos do Programa Geologia do Brasil - PGB.

 


Resultados Esperados

 

Com a finalização da cartografia geológica na escala de 1:100.000 e a integração dos dados de petrografia e microtectônica com os dados de litoquímicos, geocronológicos e de geologia isotópica, bem como com os resultados dos concentrados de bateia e de sedimentos de corrente, espera-se avançar no esclarecimento de vários problemas geológicos, destacando-se:

Caracterização petrológica e estrutural das rochas do embasamento reunidas na unidade Trairão, com interpretações quanto ao seu significado geotectônico e evolução crustal;

 

Caracterização do ambiente deposicional e da evolução metamórfica e estrutural dos metassedimentos Cauarane com avanços na determinação de condições de temperatura e pressão e na geocronologia dos principais eventos tectono-termais registrados, esperando-se ainda esclarecer o ambiente geotectônico envolvido;

 

Caracterização do vulcano-plutonismo calcialcalino representado pelos granitoides Pedra Pintada e vulcanitos Surumu, de forma a definir seu ambiente de deposição e colocação, sua petrologia e ambiente geotectônico, pós-colisional ou pré-colisional, de acordo com as propostas disponíveis na literatura sobre a região;

 

Caracterização petrológica e geocronológica dos corpos granitoides tipo-A e esclarecimento de seus mecanismos de colocação;

 

Caracterização das potencialidades metalogenéticas das diversas unidades litológicas cartografadas com a elaboração de um modelo geológico/metalogenético evolutivo para a região.

   

Área do Projeto Amajari

 

  

Figura 1 – Área inicial do Projeto Amajari, abrangendo toda a Folha NA-20-X-A-III e parte das folhas NB.20-Z-C-III e IV, e NA-20-X-A-II, V e VI. Encontra-se realçada a Folha NA-20-X-A-III, Vila de Tepequém, área proposta para a atuação do Projeto Amajari a partir da presente reestruturação.


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